quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Cidadão





Há algumas semanas eu estava estudando para fazer prova de matéria de Ética Profissional ou prova de Maria Lúcia Barroco, o que parecer mais bonito. A leitura do texto foi um pouco difícil, ainda que a autora tenha os méritos da clareza e fluidez. Mas, foi difícil porque a reelaboração simultânea do texto, para mim, se deu em associação com a música Cidadão tocando em minhas lembranças de noites infantis de seresta, fragmentada em pedaços simbólicos e rememoráveis, no sotaque nordestino e no violão absoluto de Canindé.

Parei algumas vezes a leitura, entre outros motivos dispersivos e sonolentos, para escutar mentalmente, no fundo de minhas reminescências, a música tocar fragmentada e simbólica, me indagando das impressões infantis acerca dela, dos insumos, sejam eles quais fossem que me deram para interpretá-la.

Primeiro eu não rememorava mais que o silêncio de respeito da audição concordante que meus pais, meus parentes e seus amigos dispensavam a esse momento da seresta. Silêncio apenas rompido pelos comentários de concordância, de afirmação daquela verdade e da profundidade que tangia no que lhes concernia como trabalhadores.

Em se tratando do sotaque nordestino de Canindé, a identificação, suponho, deveria ser mais intensa, na anuência sólida e silenciosa de que trabalhar é sofrer, é ser partícipe de um engano onde se é o lado mais frágil e mais frágil, de novo e de novo, mais e mais, por artificialidades tantas que o vencedor-narrador da história lhes infligiu no fim de cada batalha.

Na escola, sem que eu ligasse as pontas, a professora ensinava que, na progressão em que se melhor lascava a pedra e perdia o pelo, o homem, que neste caso também é implicitamente a mulher, evoluía. O homo erectus, em uma ereção evolutiva global, que pelo que se apreende está no ápice. Sabe-se lá as dimensões dor e o prazer dos espasmos do gozo...

Sem que eu ligasse as pontas, ela me dizia que a sofisticação dos meios pela evolução da perfectibilidade humana impulsionava a descoberta das potencialidades e inteligências em prol, novamente desses meios. E o que era consequência, virava causa, finalidade, subvertia os valores. Pelo entusiasmo que queria se fazer contagiante em suas aulas, e pelo entusiasmo que por vezes ainda me flagro, aprendemos as duas o jogo de aprender a deixar-se subverter pelo valor da coisa.

Memórias à parte, os dois capítulos que li para a prova trouxeram outros significados para música que sempre ouvi com certo respeito, como a constatação da dureza da vida e do abrigo universal da religião. Tal qual um canto de lamento, um blues nordestino, dialogando com Marx um desvelar singelo e poético da alienação do trabalho, do estranhamento vil em relação ao produto, na música e na vida travestidos de algozes, vis quando da sua suposta direção social. Um prédio, uma escola. Morar e conhecer não nos estão dados dignamente. E, então, o que dizer aos filhos, na desproteção de seus pés nus e discriminados para trilhar a vida, alheios como nós ao que nos custa construir e manter? Como lhes consolar as faltas e veracidar os limites subsistindo nessas desvairadas, nessas históricas, ironias e omissões? Nos restará dizer-lhes que bastem-se na acolhida, quase solidária, da religião face à ausência do seu direito ao chinelo, ao teto, a indagar?

Minha veia católica, ou caótica, como mais aprazível e identificável pareça, pulsava feliz da conclusão de que o abrigo da Igreja era o único a não negar a possibilidade da colheita do árduo plantio. Se hoje lhe chamasse veia da conformação, nomearia minha decepção quase cética com o que nos poda e venda essa porta aberta, esse aconchego paternal humano. Mas o religare com Deus só poderia ter vias perfeitas sem o livre arbítrio. Já viu juiz de jogo com mãe tranqüila ou sem erros no currículo? Não há. Todo aquele que arbitra encontra-se com pecado, em uma das duas ou três vias.

Não há conclusões a serem prescristas. Estão já cantadas e ouvidas, na língua que nos fala aos fatos.

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