
Em geral, esses e-mails são eivados de uma indignação exemplar, de uma indução lógica palatável, quase gostosa, que faz você ir indignando-se, assentindo com a cabeça enquanto lê e progressivamente se abisma com os disparates dessa sociedade desprovida de valores, onde o dinheiro e o poder ditam regras absurdas. O "quase gostoso" dessa "indução lógica palatável" é o confortável lugar que este tipo de texto cava e ao qual nos convida a assentar-nos cheios de razão, a sentir-nos irmanados com uma massa de pueris enganados, que trabalham todos os dias para sustentar a boa vida de infames criminosos.
Não vou ser eu a pueril - de novo, já que sou, teoriocamente, parte daquela massa cheia de razão - de tentar entabular uma lógica onde os remetentes desses e-mails, jogadores de papel no chão, burladores de regras de convivência, motoristas "alegres" e outros pequenos crimes cotidianos afins são comparados àqueles a quem teoricamente sustentam por roubá-los.
Vou ater-me ao colorido das mensagens, à suas extensões, à quantidade de informações e a retidão ortográfica que costumam ser características desse e-mail. Enfim, estou referindo-me a tempo e energia canalizados em mensagens assertivas.
Não consigo imaginar, sem teorias conspiratórias, quem escreve, compila e remete essas pérolas da indignação brasileira. Em minha imaginação fértil, essa pessoa era, há tempos atrás, antes da introdução do auxílio reclusão, um vigilante social, um resistente intelectual pronto a nos lembrar rápida e assertivamente dos disparates de nossa sociedade.
Mas, a crítica ao auxílio reclusão, polarizou minha fantasias entre uma imagem pueril e outra irônica.
E nós (aqui incluo-me), habituados a repassar e-mails indignados, praticamente como a boa ação do dia e a prova cabal de que somos politizados e críticos, vamos repetindo a supressão do exercício simples de desconfiar, de indagar. E vamos repassando a listas cada vez maiores de contatos e recebendo os mesmos e-mails diversas vezes, mobilizando uma rede vegetativa, silenciosa e indignada, capaz de rodar o Brasil, mas sem capacidade de uma vez que seja nos fazer desconfiar, perguntar, ir além.
E suprimindo crianças, famílias, necessidades, direitos. Não bastasse que, mais do que ostentar desinteresse pelo sistema prisional, desejemos que ele seja mesmo o inferno que faça sofrer e purgar por força da violência os descumpridores das normas, justas ou não, equânimes ou não, resolvemos imputar à toda família o crime ou possível crime de um de seus entes.
Nada contra o saudável escapismo nosso de cada dia, nada contra a vigilância social necessária e saudável, mas, nesta nossa sociedade, nas lacunas de discursos ingênuos não habita o vazio, nelas os interesses diversos locupletam-se.
Nada contra, mas, nós é que estamos precisando de auxílio, cá na reclusão em que nos encontramos, presos aos mesmos circuitos de ações, pensamentos e supressões destes. Nem sou prodígio de análise ou mobilização, mas, não suprimir o outro e seus direitos é uma coisa que até o senso comum ensinou. Repensemos
Dixi.
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