sexta-feira, 11 de novembro de 2011

A quem pertence as grades





Há mais ou menos uns 2 anos tenho recebido periodicamente e-mails com críticas à corrupção da política brasileira, e há poucos mais de 8 meses, esses e-mails têm relacionado o auxílio reclusão como o cúmulo da inversão do valores, como uma ironia perversa contra o trabalhador, elevado à altura de uma "prova cabal" de que aqui, no Brasil, o crime recompensa social e economicamente.
Em geral, esses e-mails são eivados de uma indignação exemplar, de uma indução lógica palatável, quase gostosa, que faz você ir indignando-se, assentindo com a cabeça enquanto lê e progressivamente se abisma com os disparates dessa sociedade desprovida de valores, onde o dinheiro e o poder ditam regras absurdas. O "quase gostoso" dessa "indução lógica palatável" é o confortável lugar que este tipo de texto cava e ao qual nos convida a assentar-nos cheios de razão, a sentir-nos irmanados com uma massa de pueris enganados, que trabalham todos os dias para sustentar a boa vida de infames criminosos.
Não vou ser eu a pueril - de novo, já que sou, teoriocamente, parte daquela massa cheia de razão - de tentar entabular uma lógica onde os remetentes desses e-mails, jogadores de papel no chão, burladores de regras de convivência, motoristas "alegres" e outros pequenos crimes cotidianos afins são comparados àqueles a quem teoricamente sustentam por roubá-los.
Vou ater-me ao colorido das mensagens, à suas extensões, à quantidade de informações e a retidão ortográfica que costumam ser características desse e-mail. Enfim, estou referindo-me a tempo e energia canalizados em mensagens assertivas.
Não consigo imaginar, sem teorias conspiratórias, quem escreve, compila e remete essas pérolas da indignação brasileira. Em minha imaginação fértil, essa pessoa era, há tempos atrás, antes da introdução do auxílio reclusão, um vigilante social, um resistente intelectual pronto a nos lembrar rápida e assertivamente dos disparates de nossa sociedade.
Mas, a crítica ao auxílio reclusão, polarizou minha fantasias entre uma imagem pueril e outra irônica.
Na face pueril eu enxergo quase um romantismo controverso em supor que em uma sociedade como a nossa - que tanto pune em prol da propriedade, que tanto pune apenas pela sugestão da transgressão da norma, que tanto pune por cor, por classe, por diferenças – “premie” tão fácil e explicitamente quem lhe fere a norma. Nem mesmo, diante da lógica desses e-mails, por uma descarada solidariedade entre políticos corruptos e prisioneiros consigo justificar a doçura de onde se origina essa indignação.
Na face irônica, imagino alguém locupletando-se da sensação de quem sabe ter infundido em cada leitor um incômodo, em saber-se louvado no acerto da assertividade, na palatabilidade de seus argumentos, no reconhecimento de sua capacidade, quando da dificuldade de criticar um argumento tão facilmente validável pelo senso comum.
Para mim não há maldade em nenhuma das duas motivações. Talvez, para quem se afirme de fato católico, a face irônica que imagino flerte perigosamente com uma vaidade pecadora.
Qual seja a face que corresponda a essa pessoa atenta, ela se refere a uma ingenuidade tal que me deixa intrigada. O tempo gasto em escrever, formatar e distribuir o e-mail, ao que parece, subtraiu tempo à pesquisa que seria simples e desambiguadora.
Ou, mais simplesmente, pode ter subtraído tempo a um simples exercício lógico de perguntar-se: A quem é destinado esse benefício? Ou alguém achou que é uma poupança para quando recluso sair?
A Previdência Social tem critérios eletivos para cada um de seus benefícios e ainda não vi em nenhuma de suas legislações, manuais e afins, o critério “reclusão conseqüente de prática criminosa” como requisito de concessão do benefício.
A supressão desse exercício negligenciou outras dimensões dessa questão: famílias, crianças, necessidades. Mães, Pais e responsáveis presos não eliminam magicamente filhos/tutelados, cônjuges e suas necessidades do mundo. Eles permanecem existentes e carentes de assistência, de proteção social.

E nós (aqui incluo-me), habituados a repassar e-mails indignados, praticamente como a boa ação do dia e a prova cabal de que somos politizados e críticos, vamos repetindo a supressão do exercício simples de desconfiar, de indagar. E vamos repassando a listas cada vez maiores de contatos e recebendo os mesmos e-mails diversas vezes, mobilizando uma rede vegetativa, silenciosa e indignada, capaz de rodar o Brasil, mas sem capacidade de uma vez que seja nos fazer desconfiar, perguntar, ir além.

E suprimindo crianças, famílias, necessidades, direitos. Não bastasse que, mais do que ostentar desinteresse pelo sistema prisional, desejemos que ele seja mesmo o inferno que faça sofrer e purgar por força da violência os descumpridores das normas, justas ou não, equânimes ou não, resolvemos imputar à toda família o crime ou possível crime de um de seus entes.

Nada contra o saudável escapismo nosso de cada dia, nada contra a vigilância social necessária e saudável, mas, nesta nossa sociedade, nas lacunas de discursos ingênuos não habita o vazio, nelas os interesses diversos locupletam-se.

Nada contra, mas, nós é que estamos precisando de auxílio, cá na reclusão em que nos encontramos, presos aos mesmos circuitos de ações, pensamentos e supressões destes. Nem sou prodígio de análise ou mobilização, mas, não suprimir o outro e seus direitos é uma coisa que até o senso comum ensinou. Repensemos


Dixi.

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