sábado, 9 de fevereiro de 2013

Politicamente Correto dói




Segundo resultado para "politicamente correto" no Google.




As pessoas não se cansam de afirmar que politicamente correto é coisa de negro, de gay, de deficiente e de minorias. Daqueles que são desprovidos, dos que são desprotegidos, fracos para o jogo social, dos deserdados pela sorte e pela glória. De neguinha, de cotó, de viado, das putas que não querem o rótulo, de uma linhagem que descende das descaradas mães solteiras e seus filhotes de puta, de vagabundas desquitadas, das “rabo ligeiro” de mais de um homem, que deram antes de casar ou casaram várias vezes. E como esquecer das pretas golpistas loucas para ter uma barriga limpa? Aí alguém diz: “Mas não era bem isso que eu quis dizer. Aliás, eu nunca quis dizer isso. Até pelo fato de que eu não sou assim!”. 

E então a conversa começa por aí, por aquelas conversas simbólicas que andamos tendo na ida ao banheiro, no cafezinho pós-almoço, na cama e no Congresso. Mas, por força do costume, tantas coisas se mantêm implícitas, como que irremediavelmente grudadas a algo aparentemente inocente, que não, não é preconceito, é só uma paranóia da sua cabeça politicamente correta.

E é claro que paranóia também é motivo para piada, afinal, quando não dá trabalho, maluco serve para quê? Dar risada, não é? E se é maluquice de militante, tanto melhor para rir desse bando de desocupados, maconheiros e putas mal comidas que dormem de calça. Irritante mesmo é quando esse patrulheiro chato é meu amigo, e pode ser até viado, mas é muito estudado, se controla legal com meus outros amigos e, vejam só, ganha seu próprio dinheiro sem queimar a rosca na noite. Ou é uma grande amiga. Putinha, Maria Batalhão, mas tão legal que, tirando a safadeza, nem faz mal a ninguém.

Aí é preciso negociar aquela posição desconfortável de não abdicar da grande liberdade que é continuar a nominar e adjetivar com todo aquele repertório tão conhecido e bem quisto ao nosso humor, contudo, obedecendo essa etiqueta ditatorial que manda falar afrodescendente, sob pena de prisão ou e-mail – corrente de um paranóico qualquer mencionando seu nome e clamando por justiça.

Pior ainda deve ser encarar um humor, uma liberdade em que não haja aqueles velhos tipos já conhecidos, onde a minha criatividade tenha que se voltar para outros horizontes, e observar o cuidado em não ferir “melindres alheios” pelo simples fato de que alguns grupos humanos enxergam dez outros diálogos na minha cantada de rua. Porque é doloroso encarar que se tem responsabilidade ao corroborar o fato histórico de que nem todo mundo é ser humano e que nem todo mundo tem direito ao seu corpo e à sua história. Ou ainda assumir que é você mesmo que ensina às suas filhas que elas têm menos direitos que seus irmãos, que seus maridos tem direito de controlá-las e machucá-las, tanto quanto os seus irmãos às suas esposas. E que você concorda com isso, porque a vida é assim e, além do mais, você as ama tanto que já vinha mutilando suas liberdades para entregá-la assim, pronta a ser submetida.
É uma dolorosa saída de posição, de um conforto que não existe, mas que pode ser forjado assim que necessário para a roda seguir rodando, porque esse é o único objetivo dela, não importando os meios. O conforto não existe porque a linguagem é formatada sob a tensão de conveniências que se protegem e resistências que se opõem a elas. E se a conveniência é hegemônica, basta que você não a atenda que ela se voltará com o mesmo instrumental contra você.

Assumir as implicações do próprio discurso exige uma consciência do que ele significa, do que diz e a quem diz. Seria antes de tudo assumir responsabilidades.

Aqui cabe uma historinha da minha vida:

Eu contava quatorze anos. Estava passando pela minha primeira fossa, no auge da proporção das minhas formas e no ineditismo da minha carne naquele mercado de verão na beira da praia. O amado estava lá, esbanjando poder entre suas amigas e eu não deixaria por menos aquela medição de forças. Vesti a roupa mais ousada que não tinha – se não tem no seu guarda roupa, experimente o das amigas mal faladas – com uma impáfia (empáfia?) bem ensaiada. No meio do caminho, depois de ser cantada por homens mais velhos, por conhecidos alcoolizados e sóbrios, passei por um rapaz que soltou uma cantada das conhecidas: beijos e convites, mas que, quando percebeu minha decisão de ignorar ao passar por ele, puxou meus cabelos até que eu recuasse. Antes que eu virasse os amigos o encobriram entre broncas e reprimendas a uma imprudência daquela. Lugar pequeno, família conhecida, garota com amigos em todos os bairros.

Contei aos meus amigos bêbados e sóbrios, que queriam contar à família e promover uma caçada. Me lembrei da rixa antiga entre Porto de Cima e Chapada latente ali na praça. Se ele fosse da Chapada todos estariam em maus lençóis. Me recusei a dar qualquer informação para meus amigos irem atrás dele. E teriam ido todos, meus amigos e seus amigos. Os que diziam não gostar de gays, os que tinham fama de bater nas namoradas, os que não gostavam de putas. Prontos a defender minha honra “no dia em que eu tive a má ideia de parecer o que eu não era”.

Hoje eu penso que muitos dos meus amigos que se recusam a prestar atenção no que dizem são assim: declaram me adorar, mas estão prontos a puxar meu cabelo ou a concordar que isso aconteça entre risos. Eles estão simplesmente me dizendo que não se importam tanto assim comigo, mas se recusam a assumir isso, porque não declararam isso com todas as letras. Apesar de parte deles haver postado ou concordado, ainda no Orkut, que um gesto vale mais que mil palavras. E isto é muito preocupante se, não raramente, me comporto de maneira que eles reprovariam.

Se eles crêem que fazem acordo com o ditatorial politicamente correto, mutilando sua liberdade, eu, em solidariedade, não presumo a responsabilidade da idade que cada um tem. Explico os pontos doloridos do seu discurso para mim. Mas, daí em diante, temos uma pessoa, ao menos, minimamente consciente de seu discurso. Aí é uma questão de assumir que me respeita ou não. E não adianta tergiversar com o ar blasé de quem está transgredindo uma convenção. Outro dia que eu virei gente, mas a séculos os meus diversos já defendiam essa condição. Esse discurso é de manutenção, uma transgressão forjada, da estirpe das birras de quem está sendo deslocado de um conforto que se alimenta do sangue de alguém.

E em pensar que essa conversa só foi possível para algumas pessoas por causa da mãe, hein?
Você conhece o ditado: filho de puta não tem vez.

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