As várias fotos de todos os protestos de estudantes que já vi insistem em noticiar visualmente uma irreconciliável diferença entre quem empreende o protesto e quem o repreende com violência. Em um contexto em que se vê poucas cores ou que elas só podem ser vistas de um dos lados da foto, polícia X estudantes, ordem X caos. Como seres que habitam espaços diferentes em um mundo mantido e talhado por policiais que, em um dia como outro qualquer na sucessão da cotidianidade, é desorganizado, vandalizado por seres de fúria inconsequente, de causas pueris que só servem àqueles que não tem coisas concretas como as ausências e faltas de coisas e oportunidades no dia-a-dia, ou seja, estudantes.
Curioso é o fato de policiais e estudantes virem das mesmas comunidades, por vezes pegarem o mesmo ônibus impraticável e sentirem no final do mês as mesmas angústias que fofocam com alguma doçura condescendente os jornais do país.
Até aí o que há de curioso se torna mesmo impressionante, se só por um momento imaginarmos a cor da pele sob a farda e a cor da pele em torno da voz que grita palavras de ordem do lado oposto. Se eu disser que é a mesma, aceito o risco de um riso e da troça de quem tenha o bom senso de discordar. Mas, daí já não será tão impressionante, mas, quem sabe, pareça-nos estranho saber de algumas semelhanças nos sobrenomes de uns com os outros e cheguemos à beira das mais equivocadas das conclusões: que essas pessoas, estando no mesmo mundo, conseguiram de alguma curiosa forma habitar e compartilhar o mesmo espaço.
Eu discordo muito de que eles habitem o mesmo espaço, mesmo desconfiando que, vindo das mesmas comunidades possa haver parentescos, filiações, afinidades e criatividades afins das relações humanas. Isso se algum dos dois grupos não conseguiu a proeza de nascer de clãs inteiramente independentes, de ovos ou brotar, do chão da força da ordem ou do caos, adultos bem acabados e programados para exercícios de guerra.
Pois, se habitassem os mesmos espaços - ou melhor, imaginemos menos ambiciosamente, se habitassem o mesmo mundo - seríamos obrigados a cogitar que o estranhamento que leva um a ferir de morte o outro, como parte do desempenho de seu trabalho, seria artificialmente produzido, implantando. Pior ainda, se pensarmos que o argumento mais forte da existência do trabalho do que fere existir é assegurar a integridade do que é ferido.
E esse caminho de análise é muito perigoso, pois, se eles concretamente habitassem o mesmo espaço, pelo que dizem nossos olhos, genealogias e cotidianos, analisar por esse viés é desconstruir um fosso entre as duas existências, de onde se erigem dois outros mundos diferentes. Esses que podemos ver na foto.
Sem mais delongas, exponho aqui o fato definitivo pelo qual considero não haver possibilidade de coexistirem no mesmo espaço: se nem todos os policiais têm carros, ou nem todos os seus parentes os têm, se eles morassem nos mesmos lugares que os estudantes, discordariam também de uma passagem de ônibus tão cara e ficariam igualmente indignados com governos que simplesmente se recusam a tratar seriamente do assunto e mandam profissionais violarem direitos do povo que os elegeu.
Esse seria um grau de estranhamento realmente muito perverso, que necessitaria de todo um aparato ideológico para funcionar, porque poderia ser desmontado pela lógica, se não houvesse uma outra lógica convenientemente estruturada para negar a realidade acessível às vivências destes policiais. Teria que haver toda uma forma de representar e apresentar a realidade bastante diferenciada para que as cabeças entendessem diferente do que o corpo vivencia. Seria quase dizer, por exemplo, que a mídia veicularia inverdades e distorções que fomentariam o estranhamento, sem sequer se preocupar em acabar fomentando novas violações de direito e a culpabilização dos arrazoados.
E eu acho que a mídia não está aí para isso, ela está aí pra informar e formar, inclusive no esforço hercúleo de revezar-se entre dois mundos diferentes para mostrar estudantes insatisfeitos, policiais determinados e pessoas exasperadas com o trânsito parado. Aliás, se isso tudo que se pode cogitar fosse verdade, o estranhamento se estenderia a essas pessoas também, veja só!
Sem mais delongas, exponho aqui o fato definitivo pelo qual considero não haver possibilidade de coexistirem no mesmo espaço: se nem todos os policiais têm carros, ou nem todos os seus parentes os têm, se eles morassem nos mesmos lugares que os estudantes, discordariam também de uma passagem de ônibus tão cara e ficariam igualmente indignados com governos que simplesmente se recusam a tratar seriamente do assunto e mandam profissionais violarem direitos do povo que os elegeu.
Esse seria um grau de estranhamento realmente muito perverso, que necessitaria de todo um aparato ideológico para funcionar, porque poderia ser desmontado pela lógica, se não houvesse uma outra lógica convenientemente estruturada para negar a realidade acessível às vivências destes policiais. Teria que haver toda uma forma de representar e apresentar a realidade bastante diferenciada para que as cabeças entendessem diferente do que o corpo vivencia. Seria quase dizer, por exemplo, que a mídia veicularia inverdades e distorções que fomentariam o estranhamento, sem sequer se preocupar em acabar fomentando novas violações de direito e a culpabilização dos arrazoados.
E eu acho que a mídia não está aí para isso, ela está aí pra informar e formar, inclusive no esforço hercúleo de revezar-se entre dois mundos diferentes para mostrar estudantes insatisfeitos, policiais determinados e pessoas exasperadas com o trânsito parado. Aliás, se isso tudo que se pode cogitar fosse verdade, o estranhamento se estenderia a essas pessoas também, veja só!
Porque a pessoa que dá depoimento dizendo que o protesto é uma baderna e que é falta de respeito e consideração prender o trabalhador no trânsito, fica presa neste mesmo trânsito por conta da falta de planejamento, de obras ou eventos, não apenas eventualmente, mas semanal, diariamente. E o que faz com que o que tão habitualmente irrita, e nos insta a sair de casa com duas horas de antecedência, nos exaspere tão mais é sentir a injustiça, a ilegitimidade do ato.
Não é suficiente que me digam que aquilo é pelo país, por nossas angústia compartilhadas, por um transporte caro e insuficiente, uma vida cara pra viver a nossa vida, que vale tão pouco.
Não é suficiente simplesmente porque não cabe no que constitui o meu mundo, a representação da realidade que se presta à minha leitura e que me diz que moralismo, cordialidade e docilidade nos fazem tão bonitamente aceitáveis e dignos que, não importa o motivo, insurgir-se e desorganizar qualquer que seja a ordem é uma falta de respeito com a forma.
Mas o que definitivamente assenta a certeza de que não vivem no mesmo espaço é que até os estudante estariam, não errados, mas bastante afastados do poder de análise conjuntural e de crítica assertiva. E até mesmo abandonado por suas instâncias organizativas, que não empenham todo acúmulo de debate e análise que afirmam ter. Porque estar cara a cara com a polícia seria estar cara a cara com sua cor, identidade, classe, da mesma forma que ao passar pelos ônibus lotados seria como passar coletivamente por si mesmo e, com tanto conteúdo identitário, uma hipotética mídia parcial e desonesta estaria investindo na força de uma forma vazia para promover um estranhamento perverso.
Neste caminho poderíamos nos equivocar ao ponto de crer que seria como esfacelar o mesmo povo em tantos grupos quanto fossem necessários para dominá-lo. Como poderia haver uma história na qual quem não é errado sofre as consequências de lutar sem olhar a forma como empunha as armas? Seria uma história na qual o único errado passaria o largo das "praças de guerra", como apelidam os jornais.Todo mundo sabe que no mundo há vilões e mocinhos, bem e mal, bem fáceis de se ver, como bem ensina a Disney. E nessa história só há um errado: a estudantada baderneira. Eu vi na TV.
Não é suficiente que me digam que aquilo é pelo país, por nossas angústia compartilhadas, por um transporte caro e insuficiente, uma vida cara pra viver a nossa vida, que vale tão pouco.
Não é suficiente simplesmente porque não cabe no que constitui o meu mundo, a representação da realidade que se presta à minha leitura e que me diz que moralismo, cordialidade e docilidade nos fazem tão bonitamente aceitáveis e dignos que, não importa o motivo, insurgir-se e desorganizar qualquer que seja a ordem é uma falta de respeito com a forma.
Mas o que definitivamente assenta a certeza de que não vivem no mesmo espaço é que até os estudante estariam, não errados, mas bastante afastados do poder de análise conjuntural e de crítica assertiva. E até mesmo abandonado por suas instâncias organizativas, que não empenham todo acúmulo de debate e análise que afirmam ter. Porque estar cara a cara com a polícia seria estar cara a cara com sua cor, identidade, classe, da mesma forma que ao passar pelos ônibus lotados seria como passar coletivamente por si mesmo e, com tanto conteúdo identitário, uma hipotética mídia parcial e desonesta estaria investindo na força de uma forma vazia para promover um estranhamento perverso.
Neste caminho poderíamos nos equivocar ao ponto de crer que seria como esfacelar o mesmo povo em tantos grupos quanto fossem necessários para dominá-lo. Como poderia haver uma história na qual quem não é errado sofre as consequências de lutar sem olhar a forma como empunha as armas? Seria uma história na qual o único errado passaria o largo das "praças de guerra", como apelidam os jornais.Todo mundo sabe que no mundo há vilões e mocinhos, bem e mal, bem fáceis de se ver, como bem ensina a Disney. E nessa história só há um errado: a estudantada baderneira. Eu vi na TV.

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