Quando se rotinizou o meu primeiro semestre da faculdade, as piadas e provocações inter cursos começaram a aparecer e ser trocadas entre nós, aspirantes a assistentes sociais e os aspirantes a cientistas sociais. Estávamos principiando nos costumes e ritos possíveis às identidades de nossas pretendidas profissões, com a diferença que entre eles haviam veteranos e nós, éramos o supra sumo do calourismo com nosso ineditismo de primeira turma.
Podíamos um pouco mais nos arvorar de dentro de nossos estigmas de ciências sociais aplicadas e culturalmente subalternizada, por aquela ousadia dada pelo peso de uma federal conseguida com a terceira maior concorrência da federal baiana do ano em que prestamos vestibular. A aproximação entre os cursos, mesmo que, inicialmente, mais por seus alunos e organizações estudantis que pela relações de seus colegiados era algo previsível.
Que tem mesmo isso a ver com a greve da PM baiana?
Em primeiro lugar, estamos as três profissões, em proporções diferentes, ligadas - Será esta a melhor palavra? - por estigmas e níveis diferenciados de subalternização pelo fato de lidar com o que, em geral, se chama de problemas sociais.
De lá de São Lázaro, campus encantado - entre as lendas urbanas de descaso, drogas, depravação e infrações da lei inalcançáveis à PM baiana e ao cristianismo mais fervoroso, e a calmaria e umas tantas realidades bem menos glamourosas e criminosas de serem contadas - vivem os aspirantes a cientistas sociais e assistentes sociais que, paradoxalmente, por algum motivo que é desconhecido da perplexa sociedade, gostam muito desse lugar.
Lá eles tentam entender o ser humano e suas complexas teias de relações pelas lentes teóricas organizadas por outros seres humanos, por isso, merecendo muitas vezes a pecha de maconheiros marxistas.
De novo: Que tem mesmo isso a ver com a greve da PM baiana?
Tem que como decorrência dessa tentativa de entender o ser humano e suas complexas teias de relações, para ser simplista, muitas vezes de dentro de São Lázaro, os estudantes se organizam em torno de bandeiras de lutas através de suas entidades e movimentam-se por estratégias diversas em prol destas bandeiras. Poderíamos falar de iniciativas de todos os campus, da federal, da Bahia ou do Brasil, mas nos é interessante a comparação com esses e outros cursos do misterioso campus de São Lázaro. Isto porque suas organizações e reivindicações, não raro, são tidas em conta de badernas de maconheiros sonhadores ou irresponsáveis que merecem mesmo é tomar uma coça da polícia militar.
Pronto, aqui chegamos a um interessante ponto, em que novamente se encontram estudantes e policiais: seus movimentos, suas reivindicações, seus bandeiras de luta, pelo que crêem e dizem sujeitos e mídia, são desordens.
Apesar das críticas e dos diversos poréns, o crédito à honradez da profissão de policial militar que resiste à duras penas, ajuda a reforçar, ao menos para mim que o problema para a sociedade e para o Estado não são os sujeitos e sim a contestação, suas possibilidades de organização para inquirir: onde estão mesmo os nossos direitos, hein?
Nos jornais e no boca a boca das conversas cotidianas de rua e de redes sociais, vejo evocados com indignação o distúrbio e tensionamento de uma pretensa normalidade que parece fazer falta. Os jornais dão voz a comerciantes temerosos, às suspeitas de um carnaval ameaçado, às mortes violentas, aos saqueamentos e ao medo dos populares perplexos, apresentando uma Salvador sitiada, mergulhada no caos.
Ando buscando nos jornais anteriores ao dia 31/01/2012 a normalidade perturbada de Salvador, mas a buraqueira, a violência e os descasos da governança municipal talvez não tenham deixado espaço para a celebração dela. Não é mentira que os habitantes de Salvador andam em suspense, pisando em ovos minados.
Mas, creio que, ao invés de um distúrbio da ordem a greve da polícia militar tem deixado ver os ônus da sustentação do sofisma dessa ordem. Não se tem conseguido dar conta de simular ordem e normalidade desejável sem o apoio de quem tem o monopólio da violência. E a presença de quem pode com ainda mais violência e legitimidade social ostentar esse monopólio nos diz que a simples inércia de quem de quem tem algum tipo de poder desorganiza o esquema do sofisma.
Essa compulsão pela afirmação da ordem se opõe a quem quer que se atreva a protestar. Talvez pelo fato de nos acreditarmos mesmo *homens cordiais em um habitat natural de ordem e cordialidade que não se presta a contestações. Assim, nos perfilamos aos batalhões para apontar nossas críticas a quem conteste nossa capacidade de resolver sem confrontar a realidade com o sofisma. Mas o sofisma pode se alimentar unicamente de evasivas, omissões, inverdades e TV, a realidade não.
De volta a São Lázaro, um terreno em que a violência institucionalizada e legitimada não faz falta no que se convenciona como normalidade há muito tempo, é de lá que trago a experiência de que a diversidade pode pensar, repensar, divergir, se partidarizar, debater, reivindicar e mesmo assim coexistir em paz, sem violência e eventualmente descer para beber juntos perto da Igreja. E apesar de piadas e provocações, estudantes de Serviço Social e Ciências Sociais nunca se exterminaram.
Em tempo de encurtar o caminho, as morais das histórias:
Não acredite em tudo que a mídia diz
Não acredite nas lendas urbanas sobre São Lázaro
Os homens cordiais precisam de violência para manter seu sofisma de ordem
Resumindo, por tudo que me ensinou São Lázaro:
Não creia em nada sem suspeitar que as pessoas usam lentes convenientes para enxergar a realidade e tentam vendê-la a todo custo para você.
*Termo formulado e difundido por Sérgio Buarque de Hollanda em seu livro Raízes do Brasil, de 1936. Tido, no livro, como a contribuição da sociedade brasileira para o mundo, o homem cordial, “docilizaria” as relações sociais, sendo cordial e pacificador
Excelente artigo. Quando menciona a credibilidade da mídia de massa, lembro dos maiores anunciantes na TV, jornal e rádio baianos: o governo estadual.
ResponderExcluirMais uma vez, parabéns pelo artigo.
Obrigada, Josival, pela visita, pela leitura e pelas palavras. Sinta-se a vontade para retornar e criticar a seu gosto quando assim lhe parecer justo.
ResponderExcluir:D