quinta-feira, 10 de setembro de 2015

Você quer ser uma assistente social?



Você precisa se perguntar...




Já ouvi mil vezes a fatídica pergunta que deixa uma assistente social em melindrosos lençóis:

"O que faz uma assistente social?"

Mais dura que essa só "o que é questão social?".
Cada vez minha resposta para o que faz uma assistente social é uma, vivo colecionando-as mentalmente. Mas minhas preferidas são as dadas às crianças, que sempre envolvem muita hesitação e fórmulas simples.

Ultimamente minhas respostas para os adultos que não conhecem os debates da profissão vai na linha "Guia do Estudante", não arrisco muito além disso se não houver base pra desenvolver o significado da profissão.
Mas venho me perguntando se nós assistentes sociais sabemos o que faz uma assistente social quando ingressamos na formação.

"O que faz" é, grosso modo, uma síntese do que pensa, interpreta, defende e objetiva. 

É verdade que, no primeiro semestre há de 4 a 5 professoras para lhe ajudar a construir essa visão. Contudo, o quanto dessa visão se converte em postura?

Muitas de nós chegam ao Serviço Social por uma visão de vocação que mais se identifica com uma perspectiva cristã de servir do que a objetivação profissional de compreender, intervir, modificar, transformar.

O que não é necessariamente um problema irremediável. É uma identificação baseada em uma das representações que se tem da profissão, a que mais vigora no senso comum. Não é a que mais me preocupa. Como todas as outras representações distorcidas, é algo que se vai elaborar e superar através da boa formação.

Me preocupa mais quem passa/passará pelo Serviço Social sem percebê-lo. Quem o escolheu como a opção menos dolorosa.

Eu mesma, em alguma medida, o escolhi assim. Queria o jornalismo, sonhava com ele, mas, diante das poucas perspectivas de atuação e independência financeira coexistindo na mesma década, resolvi fazer outra coisa "mais operacional e com maior campo". Mas a escolha obedeceu o critério "maior afinidade de estudo e atuação depois do jornalismo".

Durante a formação nessa opção "mais operacional", vi várias colegas de diversos espaços de formação viverem o curso através de negações e depreciações: do valor da leitura, das formulações teóricas, da necessidade dos debates. Como se a formação fosse um suplício pelo qual se deve passar com o mínimo esforço e envolvimento, com todas as burlas possíveis para não se deixar capturar pelo enfado que é estudar.

Acredito na formação de nível superior como a aquisição de ferramentas para a construção de um salto qualitativo, que lhe permite superar o senso comum e manejar ferramentas teórico-metodológicas para interpretação da realidade e desenvolvimento de tecnologias de intervenção. E esse empreendimento não prescinde de estudo.

Ora, se você não gosta de ler, não consegue se ver envolvidas em debates e não vê a hora de se livrar da obrigatoriedade de acumular e processar conhecimento teórico, então, você não pode ser uma assistente social.
De fato, na verdade, você pode: não há nada que lhe proíba. 

Mas não é apenas o juramento da formatura que fica esvaziado por esse tipo de conduta.

A assistente social vai ser assistente social para poder comer, beber, habitar, fazer a unha, o curso, a viagem pela Europa, para se sentir inteligente, para ser promovida, para comprar o carro, o celular, a roupa, o sapato.


É uma distorção da formação que tende a operar, no mínimo, três consequências:
a) Produz assistentes sociais que não correspondem ao perfil profissional estabelecido nas Diretrizes Curriculares, que não é um simples descritivo de produto, mas uma síntese de amadurecimentos e avanços da profissão b) Produz distorções nos fazeres profissionais e no potencial de contribuição que podemos dar nas diversas políticas sociais, não raro esvaziando ou subvertendo avanços e possibilidades construídos historicamente e; c) Por essas razões, tende à continuidade de uma visão tecnicista do Serviço Social, inclusive elitizando a parcela de nós que consegue ter uma boa qualificação.

Quando estiverem em cada prato da balança todas essas necessidades e os imperativos institucionais, talvez não seja muito possível perceber que os imperativos institucionais estão no lugar errado, ocupando o local de equidade que equilibraria a balança se lá estivessem as necessidades dos que serão alcançados por nossos fazeres.
Ainda que não possamos por força da vontade - sempre ou frequentemente -  deslocar essa lógica, aceitá-la por força da continuidade das coisas é uma contradição séria das objetivações do Serviço Social.

Por isso, vejo essas negações como um mecanismo perverso de sabotagem das próprias potencialidades.

Claro que esses discursos não chegam à boca de assistentes sociais por pura coincidência... Não é fácil estudar e produzir com tudo mais na vida acontecendo e demandando na ordem do dia. Muito menos o conhecimento tem sido pensado e ofertado para ser popular e acessível. E antes dessas razões, há inúmeras questões sobre autoidentidade profissional coletiva que informam muitas dificuldades em credibilizar a voz, a expertise da assistente social.

Acho que a formação do engajamento nesta postura de adesão ao que significa ser uma assistente social é a primeira tarefa em Serviço Social, que inclui a percepção do próprio discurso, a responsabilidade por ele, seus fundamentos, filiações e implicações.

Então, é uma questão de honestidade consigo e com os outros seres humanos da sua caminhada entender se nossa opção é válida, se podemos nos engajar no projeto e no perfil profissional. E mais: isso será determinante na construção das nossas competências e habilidades com algo que cobramos exaustivamente dos nossos pares - ética.





Editado em 18/09/15

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