terça-feira, 27 de maio de 2014

Para além do debate terapêutico









Vários amigxs e debatedorxs sinalizam ultimamente que, ao que parece, todas as lutas que buscam constituir os respeito pela diversidade, acabam por se tornarem opressivas, desconstruindo, inclusive, o direito a ser diverso, livre.

Close no livre. Porque foi essa palavra que começou a dar indícios dos conteúdos que elxs dão à incógnita que significava para mim o fator opressivo dessas lutas.

Algumas dessas pessoas citam o politicamente correto como esse resultado opressivo; Outras, investem crítica contra o que vou livremente nominar de "demarcação das diferenças". O que, pelo que entendi, significa manter as diferenças socialmente construídas em um discurso pelas lutas segmentadas, setorializadas, que realçariam a diferença ao invés de - ignorando-a ou suprimindo-a sistematicamente do discurso -  realçar sua artificialidade, mitigá-la, "destruí-la".

Há uma terceira crítica que me parece importante mencionar: a do coitadismo. Confio que esta seja autoexplicativa.

Este, com toda certeza, não é o caminho mais didático para começar esta reflexão, mas, a importância de começar elencando as críticas é demarcar que elas são o olhar do outro, que é também de outro lugar (nem sempre).

Adianto já a conclusão, o que também pode se revelar não ser muito didático, mas, partindo dela os nexos se constroem melhor: Boa parte dos que me disseram essas críticas, chegaram ao que chamo de ponto terapêutico desses debates. Ou seja, o conteúdo emancipatório desses debates serviu ao esclarecimento das fontes, motivações e/ou mecanismos das opressões sobre esses sujeitos, serviu para que engendrassem subjetiva ou politicamente as formas de enfrentamento a essas opressões possíveis a seus contextos, personalidades e possibilidades. E aí, se a dimensão política dessas lutas não está, de fato, esclarecida, politizada e polemizada, acabou a demanda, esgotou-se a utilidade. Ou seja, foram de algum ponto de vista, liberadxs pelo debate para seguir com menos restrições ou culpa, com mais argumentos de validação social de sua identidade ou conduta.

Outro problema que se soma ao estacionamento no debate terapêutico - e diz muito do desenvolvimento da dimensão política do debate - é a dificuldade de transitar e transigir entre o próprio lugar no mundo e o dos outros. O resultado dessa combinação é que, ao chegar ao ponto terapêutico do debate, presume-se que a demanda acabou não apenas para si, mas para todos que sejam potencialmente iguais.

Tento, sempre que possível e que o assunto vem à baila, fugir do discurso de desonestidade, de mau caratismo por parte dessas pessoas que, após a chegada em um ponto de conforto, menosprezam as grandes e complexas dimensões das grandes lutas em favor (do realce) das "resoluções" de sua trajetória particular, generalizando a partir de si. Procuro separar, no que é possível,  as (im)possibilidades de reconhecer o sofrimento imputado ao outro (que também sou eu) por discursos dessa linhagem. Mas, sinceramente, adianto já, estamos falando sobre vida,  subjetividades e direitos desse Outro, que precisa sair do plano da abstração que descaracteriza e retira do cotidiano. E dar nome às condutas é importante para conhecer e reconhecer o potencial de alcance que têm. E, de fato, por vezes estamos falando de violações discursivas do direito, que não ficam apenas neste plano. Na verdade, compõe o lastro que torna possível violações em campos diversos.

Importa a esta altura um esclarecimento que faz toda diferença: o debate terapêutico não dirá respeito a qualquer assunto da vida, a qualquer representação identitária. É preciso que diga respeito àquela que é alvo de ações estruturantes dos condicionamentos, opressões e violações que contingenciam e cerceiam as liberdades e possibilidades dx indivídux.

Por isso, em geral, x sujeitx que chegou no ponto terapêutico de seu debate, em algum aspecto ou sentido demonstra afinidade com o movimento que luta em prol da liberdade da identidade ao qual estx se filia. De forma que, ao enunciar a opinião acerca dos movimentos, estas pessoas podem inclusive enunciar como pessoas de dentro do movimento, com uma opinião que se legitima em uma trajetória.

Mas o que, de fato, me intriga e enseja uma reflexão é que esta posição privilegiada de pronúncia utilizada para menosprezar os avanço de certos debates, especialmente pela afinidade com algum lugar de conforto que não se quer ver desconstruído como se reivindica a outros aspectos. Assim, vários homens negros militantes limitam as possibilidades de suas companheiras negras militantes ou não com base na preservação das prerrogativas da masculinidade no patriarcado.

O curioso - ou melhor, o cruel -  disto é que o conteúdo emancipacionista das luas destxs sujeitxs no que se parcializa, se perde. Não que se invalidem os esforços empregados, os contributos para o avanço. Mas há um prejuízo imenso para a objetivação da superação das opressões e das iniquidades geradas por suas interseccionalidades. E mais: para a educação dos demais ao redor, que se educam no crescimento de um debate que se parcializa para liberar o indivíduo para maior gozo de seus privilégios.

Algo um tanto controverso, ambíguo e quase perverso parece se anunciar do fundo dessa questão: pessoas que se posicionam do conforto da liberação do seu debate terapêutico parecem muitas vezes cumprir um papel extremamente funcional de destensão social e alcance do patamar civilizatório de sua época. Ou seja: lutam até que haja uma resolução parcial, confortável para si dos conflitos sociais pela necessidade de haver uma resposta que não desorganize esquemas estruturais e que dêem ao indivíduo o mínimo acesso ao patamar civilizatório de sua época.

Chega a soar como uma profecia barata, um diagnóstico paranóico, mas, são para mim o germe da contradição - não do contraditório -, da manutenção dentro dos debates emancipatórios. E são também a prova viva de nossa capacidade estratégica de debate e formação limitadas.








Nenhum comentário:

Postar um comentário