segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

Tudo cabe na vontade - Ou O Triunfo dos Mártires




Zumbi -  Ele não surgiu da bondade do mundo (escravocrata).


Não sei até onde nos influencia nosso gosto e fascínio por super-heróis fictícios e reais, mas desconfio que, aliado à educação para o trabalho, baseia o pressuposto (preponderantemente ideológico) de que, a partir do esforço fora do habitual ou antes, além dele, tudo pode ser conquistado na medida do desejo e do empenho de cada um. Pressupondo já que o ponto de chegada é sempre satisfatório se sob o entusiasmo da vontade e da autodeterminação.

Mas aí talvez resida sutilmente a primeira contradição desse discurso. Para quê mesmo nos valemos do super-herói em nossas sagas pessoais e coletivas? Ou antes, por quê nos valemos dele, dada a nossa possibilidade de empenhar vontade?

O herói se constitui na adversidade, na necessidade de justiça, o que sugere um contexto de desigualdade, onde não nos bastam os desejos e objetivações individuais. Os heróis costumam mutilar seus desejos e regojizarem-se na concretização paradoxal do seu sofrimento em prol do bem estar dos demais.

Até aí temos boas histórias, dilemas envolventes que, no entanto, não fazem uma transição tranquila para a realidade. Mesmo porque o herói não se erige de seu contexto com os recursos dos quais dispõem todo o resto. Natural ou artificialmente eles não são comuns, tampouco se deparam com questões, dilemas do mesmo ponto de visão e responsabilidades de que comungam os seus protegidos.
Contudo, a despeito do que é preciso suprimir ou invisibilizar para que o herói, o mártir, sente-se cá no acolchoado gasto do nosso sofá, com a naturalidade dos que conosco partilham o cotidiano, é pensamento corrente de que a falta de sucesso se constitui na ausência do talento ou da vontade.

O pulo do gato está ensombreado pela noite sem estrelas. O contexto que gera o herói o elege à excepcionalidade, lhe exige tributos de sofrimento e abnegação e o afasta da sua condição par com seus iguais. Talvez por conta desse último aspecto o herói seja uma projeção fascinante, uma vez que o herói/mártir a despeito disto convive no mesmo espaço que os demais, sugerindo que poderia ter sido qualquer um e que, sua força extraordinária - que lhe põe em contato com objetivações ético-morais mais complexas e com um raio de influência maior - é um potencial latente em cada um.

No simples exercício de se perguntar de que valem os heróis, há que se admitir a ambivalência do signo. O herói é também o libertador negativo, que liberta de algo e que gera uma manutenção da incompetência do contexto ao afirmar sua externalidade, sua incapacidade de estar nivelado aos demais sem a perda do seu poder.

A essa altura, aquele herói, o mártir que está ali no puído acolchoado do sofá, não é senão a prova viva de que nossa vontade é expressão das impossibilidades e que ele é uma sustentação ideológica de que o alcance do bem é uma via de contramão que impõe sofrimento.

Não é mera coincidência ler o capitalismo nas entrelinhas de uma contradição fundamental, se eu não posso, diante do meu contexto acessar o bem estar como uma via natural de curso. Se aquele que alcança precisa estranhar sua condição de origem. E não se fala aqui de essência, mas de projeção no tempo e no espaço do corpo e de sua objetivação. É que um só pode ser na negação do outro, estranhando a forma do outro.

E mais, porque não poderíamos falar do herói sem aquele que personifica a vilania e, especialmente em uma lógica cartesiana e maniqueísta, antagoniza na polarização de extremos opostos, bem e mal. O herói é o símbolo tergiversado de nossa resistência, de nosso encontro inconformado com a maldade. Nem tudo cabe na vontade...

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