sábado, 10 de agosto de 2013

Ciência, Paixão e Militâncias - I









Outro dia, conversando com uma amiga, ela me disse que foi acusada de ter uma produção militante. Ou seja, sua produção servia aos interesses de defesa da sua militância. Isto posto em um contexto pejorativizante, creio que signifique que uma produção militante não possa ter sido construída em observância de alguns critérios que derivam do rigor científico, não tendo, assim, o mesmo valor acadêmico dos que, supostamente, observam esses critérios.
Para pensar um pouco na questão, vou deixar claro que o sentido de militante que adoto aqui é o que creio que habita a representação social mais comum. O militante como aquele que luta ativamente e publicamente em prol de uma causa.
O modo é deveras importante: publicamente. Até por que, mais adiante veremos que o fator do caráter público do debate se divide em dimensões que nem sempre estão esclarecidas.

Pois bem, eu não questionaria o rigor com que foram produzidos os textos dessa amiga, que tem uma longa história acadêmica de qualidade e que produziu coisas de impacto que redirecionaram importantes discussões. Por outro lado, caso sua produção seja, de fato, militante, há um prejuízo em sua qualidade? 
Considerando que a qualidade de militante é uma qualificação minimamente positiva, - uma vez que, a causa do militante tem que ser considerada em algum aspecto válida e/ou legítima, ou será uma luta considerada sabotadora e/ ou terrorista - parece uma controvérsia que, no espaço da academia, a elaboração da condição militante destitua a produção de qualidade, por contaminá-la ou estruturá-la.

A menos que, o sujeito militante seja persona non grata ao espaço acadêmico, por sua causa ou sua forma.

A esta altura, cabe um questionamento: mas quem pode ser considerado militante?
Começando pela classificação "aquele que luta ativamente", está claro (não está?) que não podemos aprisionar a militância aos atos de rua e de confronto físico. Pensando no militante como aquele que por ação ativa, de proposição, de ideação, se identifica e defende uma ideia, não só os partidários da esquerda, as feministas, o movimento negro e os que geralmente nos ocorrem quando citamos a militância, são militantes. Mas é claro que, o sentido de militância está comumente revestido da ideia de intervenção  na realidade e/ou mudança, de transformação. Ainda assim, os professores que estudam e defendem em livros, artigos e eventos o liberalismo, o capitalismos e ideias afins, não militam em prol destas ideias? Suas produções e defesas não são a base de projeções que buscam intervir na realidade? Não se materializam em políticas sociais, tratos e destratos de diversas problemáticas?
Mais ainda: não o fazem publicamente, ganhando, tal qual grandes líderes de lutas emancipatórias, notoriedade, tornando-se referência para pensar, produzir e intervir sobre seus assuntos?
Entretanto, não apenas não classificaríamos Milton Friedman como militante, como não o faríamos sem grande incômodo. A raíz do incômodo está em uma não tão sutil dimensão do sentido de militante. A militância aponta para  a insatisfação com o estado das coisas e, além disso, com a denúncia da insatisfação e seus motivos. É uma intenção de quebra com um paradigma opressivo estabelecido. E é também o critério de validação sob o signo da militância.

Caberia aqui uma reflexão das origens de fundamentação do espaço acadêmico - que não seria sucinta - para elucidar as motivações do incômodo causado pela presença do militante e sua causa. Mas assumirei ser irresponsavelmente simplista, ao adotar a conclusão de que o espaço acadêmico historicamente serviu a vetores de manutenção da ordem estabelecida, construído e mantido por sujeitos que vinham desse lugar de interesse e proposição. De forma que, a presença militante é não apenas um corpo estranho, mas um contrassenso à lógica do espaço, algo que não atende aos seus critérios básicos de constituição.

Aí chegamos à inevitável(?) conclusão de que existe diferenças entre as defesas que se pode ou não fazer dentro da academia e os propósito aos quais essas defesas podem servir. E a raíz da diferença está na validação ou não sob o signo da militância.




2 comentários:

  1. Nossa!!! Que discurso, que conteúdo, que eloquêcia! Belo e necessário texto, Cláudia Isabele! Eu recomendo para além do blog, pois "existe diferenças entre as defesas que se pode ou não fazer dentro da academia e os propósito aos quais essas defesas podem servir".

    Um abraço negro

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